11.9.10

WISLAWA SZYMBORSKA


FOTOGRAFIA DE 11 DE SETEMBRO


Atiraram-se dos andares em chamas.
Um, dois, ainda alguns,
mais acima, mais abaixo.

A fotografia deteve-os na vida,
preservou-os
sobre a terra ruMo à terra.

Cada um ainda na íntegra,
com rosto individual
e sangue bem guardado.

Ainda há tempo
para os cabelos esvoaçarem
e do bolso caírem
chaves e alguns trocos.

Ainda estão ao alcance do ar,
no âmbito dos lugares
que acabaram de se abrir.

Só duas coisas posso por eles fazer:
descrever este voo
e não acrescentar a última frase.


(de Instante, tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio Neves, Relógio d'Água, 2006)

6.9.10

DORA RIBEIRO


um poeta se faz no silêncio
em bocas sem palavras
onde as horas são becos escuros
e os lábios difíceis marcas do tempo

um poeta se faz no oco do mundo
em lugares expostos e secretos
minúsculos
mas incendiáveis


(de Outros Poemas, 1997 - in o poeta não existe, Angelus Novus / Cotovia, 2005 - Colecção Inimigo Rumor)

5.9.10


JOSÉ EMÍLIO-NELSON


MINA SAN JOSÉ

Rezo pelos mineiros chilenos.
As almas soltando labaredas de El Greco.
Ciclopes à espera de subirem ao céu azul
Pelo tubo dum órgão de luzes
Que os ressuscita no sepulcro.

Estes mineiros extraem Deus.


(poema inédito, gentilmente enviado pelo Autor, acompanhado pela imagem acima)