4.4.08

[bem… é mesmo só uma fábula]

AMBROSE BIERCE

O TEMOR E O ORGULHO


- Bom-dia, amigo – disse o Temor ao Orgulho – então que tal se sente esta manhã?
- Muito cansado – respondeu o Orgulho, sentando-se à beira da estrada, e enxugando a testa coberta de suor. – Os políticos extenuam-me, à força de se servirem de mim para exporem as suas ignóbeis acusações, quando podiam, muito bem, recorrer a um cacete.
E o Temor respondeu, soltando um suspiro de simpatia:
- Pois eu estou numa situação bastante igual à sua. Em vez de utilizarem uns binóculos, é por meu intermédio que observam os actos dos seus adversários.
E iam os dois resignados escravos juntar as lágrimas, quando lhes chegou ordem de retomarem o serviço, porque um dos partidos políticos acabava de eleger um gatuno para seu chefe, e preparava-se para celebrar um reunião comemorativa do acontecimento.

(de Fábulas Fantásticas, tradução de João da Fonseca Amaral, editorial Estampa, 1971)

3.4.08

ANA DE AMSTERDAM

(Portugal não merece o Fausto. Merece a Marisa, insuportável, intragável, feia de morrer, sempre a fazer beicinho, a pôr-se humilde, a agradecer o reconhecimento, o sucesso, os discos de platina, os prémios, os poetas portugueses e sei lá que mais. Não posso com a mulher. É superior às minhas forças. Odeio-a.)

(daqui)

2.4.08

HELENA CARVALHÃO BUESCU

O QUE DE NAVEGAR SE DESCOBRE


O mar abre as janelas em que
ao romper do dia pousou a noite, a acabar.
Pelas dunas se ergue a febre, nesse inquieto instante,
cavalgam equinócios e marés,
despejando quadrantes, bússolas
e coisas mais de navegar, cartas, mapas e globos,
e tão depressa é tão longe,
mas tão lento é o curso dos naufrágios,
tão próxima a mão que corta os nós
e agreste só serena.
Foi de ventos e tumultos,
gritos, machos e machados,
ora por vezes este amado caminho,
ora por vezes procurando a morte,
ora por vezes amando o que dela se compraz.

Tão alto gritamos que só os pássaros
ouviram; e esses, por vezes, já sabiam.

(de De onde Nascem os Rios, editorial Presença, 1998)

1.4.08